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domingo, 4 de dezembro de 2011

Boémia, Ressaca, Renascer.

Quem é que já não se sentiu como se tivesse sido cagado pelo Diabo himself?

Em dias de boémia, como são os que hoje passamos, na 'crise' das capiroskas de litro, bairro alto cheio, nessa crise toda, existe boémia. Existe a necessidade de intoxicarmos o nosso corpo. Mesmo os mais disciplinados no dia a dia têm os seus momentos de quebra de rotina em que emborcam até à última gota. Permitir a extravagância da noite lisboeta entrar dentro de nós não é assim tão mau. As pessoas alcoolizadas ficam mais soltas, mais alegres, mais predispostas a conversar. E eu que falo pelos cotovelos fico como peixe na água, quando vejo aquela mulher com olhos de 'fode-me' a gostar do que está a ouvir. É uma espécie de clip da música 'smack my bitch up', ora falamos mais acima na rua, ora falamos mais abaixo, rir é essencial, rasgar nos amigos também, sempre com lugar para uma conversa mais séria quando reparamos que temos de por alguns amigos no lugar deles. Entretanto já se bebeu uma caipiroska. Pede-se outra. Tal e qual a uma aula de aeróbica, não se pode perder o ritmo.

Entramos no nosso filme, abandonamos os amigos, os conhecidos, e os desconhecidos, vamos para onde nos sentimos bem e felizes, vemos quem também nos trata bem e nos recebe com um copo de whiskey na mão, dançamos dubstep até cair, dando lugar ao conhecido 'drum carcaçada'. Mais um whiskey. Fala-se de música, de produção, de assuntos do quotidiano artístico, falamos da infelicidade do underground ter-se tornado mainstream, falamos de 'drum a sério', falamos de produção musical.
No meio artístico, enfiado ergonomicamente no conceito de boémia, não existe um grande controlo do que é certo e errado, simplesmente faz-se aquilo que apetece. O outro tipo abre o saco, falam-se de coisas, bebem-se outras, e entretanto a bebedeira parece acalmar dando lugar a uma sensação de leveza. A noite tende a terminar. Consegue-se apanhar boleia de quem está sempre disponível para tal, e embora todo o nosso corpo peça para ir para casa, ainda se agarra no carro a ver só de uma vista, para ir encher o corpo de energia. Entre um quase despiste e um enfiamento por um sentido contrario, lá se consegue cumprir o objectivo e voltar a casa são e salvo.

No dia seguinte, caímos em nós, temos mais uma vez aquela lição de humildade que temos SEMPRE de ir levando alguns refresh's. Damos valor à vida provavelmente de uma forma superior à do dia-a-dia, e renascemos de certa forma, dentro da nossa própria ressaca, da azia no nosso esófago, do mau hálito, do mijo malcheiroso, das mãos secas, da cabeça pesada. E mais uma vez esta música surte efeito ao mesmo tempo que escrevo estas palavras.

"De manhã a cabeça está pesada
a noite foi, muito bem passada.
Chegando a casa, resolvi não entrar
É uma chaga que não quero enfrentar.

Gostava de ser, o filho que a casa vem
Gostava de ser, o filho da minha mãe."

E basicamente sinto-me a renascer da minha própria merda. Felizmente, dentro da boémia e da ressaca, pode sempre existir um renascer. Até ao próximo estoiro.

O copo de whiskey com soda cáustica e duas pedras de gelo hoje vai para mim, que como todos nós, também sou passível de vir a este tribunal onde ninguém é julgado.

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