Muitas vezes existem coisas que acontecem em cadeia e nem sempre fáceis de suportar ou engolir. Principalmente quando se erra, ou quando erram connosco, ou ambos, o que ainda é mais fodido. Por vezes perde-se o filho e o pai ao mesmo tempo, mas continuam ambos vivos. Simplesmente a envolvência dos acontecimentos faz com que a merda bata definitivamente na ventoinha e tudo se torne em nada.
O Zé sempre foi um tipo com azar. Desde miúdo fazia tudo o que os outros faziam, mas não tão bem. Talvez por ser um pouco mais preguiçoso, ou viver demasiado no mundo dele das bandas desenhadas e dos heróis da Marvel. Desde mandar as quedas mais sangrentas, a pisar as poças mais fundas, a dizer as baboseiras maiores, o Zé era de longe o tipo mais bronco de sempre, como a particularidade que era o puto que melhor desenhava na sua turma, até mesmo na sua escola, e com a sua arte conquistava os olhares secretos dos colegas que segredavam um "bueda fiiiixe..." entre eles. Era também um miúdo super inteligente que conseguia apanhar matéria sem estar atento, e que já mais tarde nas aulas de inglês apanhava o que a professora dizia enquanto desenhava. Para além de desenhar o Zé também gostava de nadar, e na altura da sua puberdade disparar juntamente com as suas borbulhas, descobriu que a natação era uma prática bastante estimulante e que a água era sem dúvida o seu elemento. Foi convidado para participar em campeonatos e mostrou ter algum jeito para a coisa conseguindo duas classificações em segundo e uma em terceiro. Todo contente a primeira coisa que fez foi contar aos pais, que prontamente o proibiram de entrar no próximo campeonato, dado que os seus irmãos tinham ambos cagado para a escola mal começaram a fazer actividades extra-curriculares. Desmotivado, conheceu o Surf e na água continuou, aprendeu sozinho a surfar, mas mesmo no meio era considerado um crominho, era fácil odiá-lo. Mas do alto da sua vaidade, ele pouco se importava com isso. Com o tempo vieram as gajinhas, as brocas, os amigos de merda, a carta de condução, e mais amigos de merda. Más opções atrás de más opções o Zé viu a sua vida andar para trás. Foi pai sem o querer. Sem o planear. E sem participar na decisão de "sim ou não". Mas o Zé para além de azar teve culpa. E não foi pouca. A espiral onde entrou, de álcool, drogas, putas e más decisões, engoliu-o sem dó nem piedade numa espécie de karma cósmico onde todos aqueles e aquelas que ele magoou ao longo dos anos se voltaram de uma só vez e atacaram numa só estocada. Foi duro. O Zé ponderou o suicídio, não conseguiu. Era só uma guinada ali na auto-estrada...
Os anos passaram e o Zé recompôs-se, devagarinho, com um ar já meio estragado, com uma licenciatura tirada daquelas que hoje em dia não servem para nada. Sem álcool e drogas no corpo. Desempregado, e com quase trinta anos começou a desesperar de novo. Tornou-se agressivo com os familiares, com as pessoas chegadas, acabou por perder o pai, o filho, os irmãos, deixando o "Zé que todos conheceram" bem para trás num horizonte bastante distante. O Zé que já não consegue afogar as mágoas numa garrafa de whiskey, nem descansar os neurónios na ponta de um cigarro. Nem esquecer o mundo num risco de cocaína. O Zé tentou renascer, mas essa de tentar fazer ouro a partir de merda é uma alquimia que até ver é impossível. O Zé é um tipo azarado mas criou o seu azar, numa vida que deixou de ser de sorte ou de azar, e passou a ser de timings. O miúdo que fazia desenhos do Dragonball Z e impressionava os amigos ainda existe. Até porque provavelmente nunca chegou a crescer, anda sim, como mais de milhões por aí, a desperdiçar o seu verdadeiro talento, num mundo que se torna demasiado pequeno para tanta ambição de aparecer na TV. A desmotivação e o desespero levam o Zé a pensar em suicídio de novo. A namorada dele, que foi uma pérola que lhe apareceu no meio de um oceano vasto e nublado, tenta demovê-lo de tal estupidez, ele lembra-se do livro de Camus que fala sobre o absurdo. Reflecte, e começa um novo dia, com a desmotivação de alguém que anda a fazer tudo com esta vida, e ao mesmo tempo não faz nada. Nada de palpável, nada que apareça nessa TV que tele-transporta as pessoas para um estado de super-humanidade fictícia e temporária. A esta altura ele só quer um Alentejo, uma guitarra e uma máquina de escrever para nela dar as suas memórias ao infinito, infelizmente já me adiantei Zé, mas podes sempre pormenorizar onde eu por respeito não fui. Até lá, resta-te perder o medo, e esquecer o passado.
Do teu melhor amigo,
Nathan Vendetta.
LIKE ME MOTHAFUCKAAA
quinta-feira, 21 de março de 2013
sábado, 16 de março de 2013
"Sou melhor que tu" é o estilo do novo milénio.
Sempre fui fascinado pelo comportamento humano, pelos olhares, movimentos de mãos, braços, pequenos tremores e suores. Mas sem dúvida que neste milénio o que tenho observado em maior quantidade é o emproamento. Esta nova geração que eu como um bom olschooler gosto de caracterizar, é uma bosta de dinossauro segundo a visão do Spielberg no seu primeiro Jurassic Park. Lembram-se? Era grande 'pra caralho. Desde o ténis, à t-shirt com mensagens subliminares, ao corte de cabelo, aos pelos no peito, o estilo que as pessoas usam é há milénios até uma das maiores formas de afirmação entre os teens, vintões, por aí fora até aos excêntricos das festas fétiche.
Se formos a ver, há 2000 anos um tal de Nazareno andava cheio de swag ali pelo middle east a dizer que era filho de Deus, mas na altura os bullies eram um bocado mais agressivos e metiam espertalhões na cruz. Não sei que jogada de poker foi aquela mas rendeu-lhe centenas de anos após a morte uma data de religiões, e cultos onde o look sem abrigo andrajoso foi largado pela igreja e agarrado pelos hipsters que hoje em dia vestem-se de Jesus, o lenhador, com os seus gorros de lã em dias de 40º à sombra. Isto porque há uma Maria Papoila que se sente húmida ao ver estes tipos deslavados que lutam contra a opressão do capitalismo vestidos com Diesel, Levi's, Obey e marcas afins. O griffe é parte integrante da sociedade e define grupos, maneiras de pensar, tendências sexuais. E até aqui, tudo bem, estou realmente a cagar bem forte 'pra isso. O que me chateia é o facto de existirem personagens que se acham melhores que todos os outros, por afirmarem um estilo, por andarem com um balanço de pinguim, por andarem a fazer peitinhos, como as galinhas, ou a exibirem as penas, como os pavões, ou aqueles que fazem a tatuagem do hamburger tribal que aquilo de tartaruga não tem nada. Isto somente para posar, na ''street'', a mostrar o seu melhor griffe, para que olhem para si. Faz-me confusão, chateia-me, mas não critico. Só acho fascinante, que esta sociedade esteja presa a tudo aquilo que é rócócó. É só gesso a imitar mármore.
Os manifestantes e os grevistas que tanto estão em voga, esquecem-se da crise para ir mamar uma ginjinha, fodem o trânsito e os prazos de quem quer trabalhar, porque até ver para se fazer greve, é preciso estar empregado, condição sine qua non. Logo, no interesse de todos, os grevistas que não estão satisfeito com o seu trabalho... Pois bem que dêem esses trabalhos tão maus e precários, áqueles que nem trabalho têm. Porque a verdade é que quem tá à rasca trabalha, quem tá à vontade queixa-se. É tudo comportamento humano, e mesmo estes manifestantes, acham-se melhores que todos aqueles que supostamente não lutam por "direitos" que supostamente todos temos. Por um direito à vida luxuosa, com griffes de marcas cliché, carros novos com pintura metalizada e penteados da moda.
Sem criticar, apenas a constatar, limito-me a ir observando, calado, trabalhando.
O whiskey com soda cáustica hoje é para os pavões. Com mais soda cáustica que whiskey.
Se formos a ver, há 2000 anos um tal de Nazareno andava cheio de swag ali pelo middle east a dizer que era filho de Deus, mas na altura os bullies eram um bocado mais agressivos e metiam espertalhões na cruz. Não sei que jogada de poker foi aquela mas rendeu-lhe centenas de anos após a morte uma data de religiões, e cultos onde o look sem abrigo andrajoso foi largado pela igreja e agarrado pelos hipsters que hoje em dia vestem-se de Jesus, o lenhador, com os seus gorros de lã em dias de 40º à sombra. Isto porque há uma Maria Papoila que se sente húmida ao ver estes tipos deslavados que lutam contra a opressão do capitalismo vestidos com Diesel, Levi's, Obey e marcas afins. O griffe é parte integrante da sociedade e define grupos, maneiras de pensar, tendências sexuais. E até aqui, tudo bem, estou realmente a cagar bem forte 'pra isso. O que me chateia é o facto de existirem personagens que se acham melhores que todos os outros, por afirmarem um estilo, por andarem com um balanço de pinguim, por andarem a fazer peitinhos, como as galinhas, ou a exibirem as penas, como os pavões, ou aqueles que fazem a tatuagem do hamburger tribal que aquilo de tartaruga não tem nada. Isto somente para posar, na ''street'', a mostrar o seu melhor griffe, para que olhem para si. Faz-me confusão, chateia-me, mas não critico. Só acho fascinante, que esta sociedade esteja presa a tudo aquilo que é rócócó. É só gesso a imitar mármore.
Os manifestantes e os grevistas que tanto estão em voga, esquecem-se da crise para ir mamar uma ginjinha, fodem o trânsito e os prazos de quem quer trabalhar, porque até ver para se fazer greve, é preciso estar empregado, condição sine qua non. Logo, no interesse de todos, os grevistas que não estão satisfeito com o seu trabalho... Pois bem que dêem esses trabalhos tão maus e precários, áqueles que nem trabalho têm. Porque a verdade é que quem tá à rasca trabalha, quem tá à vontade queixa-se. É tudo comportamento humano, e mesmo estes manifestantes, acham-se melhores que todos aqueles que supostamente não lutam por "direitos" que supostamente todos temos. Por um direito à vida luxuosa, com griffes de marcas cliché, carros novos com pintura metalizada e penteados da moda.
Sem criticar, apenas a constatar, limito-me a ir observando, calado, trabalhando.
O whiskey com soda cáustica hoje é para os pavões. Com mais soda cáustica que whiskey.
sexta-feira, 8 de março de 2013
As ilusões e as desilusões - Viragem, parte II
Na viragem do novo milénio alto da minha adolescência já de carta tirada e inscrito na faculdade, vi-me sem amigos. Tinha terminado um relacionamento e estava um pouco perdido. Tive de reatar algumas relações há muito perdidas e fazer algumas novas amizades. E durante vários meses a partilha de experiências foi fantástica, o miudo ostracizado sentiu-se enturmado de novo. Sempre fui o tipo do grupo que se estava a cagar para tudo, dizia o que me apetecia, e todagente apreciava a minha sinceridade. Era o gajo que levava o carro, era o único com carta, era o único que arriscava, sempre invencível. Sempre a passar as operações stop, com a estrelinha de não ser parado, ou de não acusar o suficiente para ser fodido. Era brutal, embora o síndrome de ''gaja gorda do grupo'' estivesse presente. Era como que se os meus "amigos" fossem mais amigos do meu carro do que meus. Eu tinha consciência da ilusão que vivia, e que tudo aquilo era só para mais tarde me desiludir, mas os dramáticos vinte anos cheios de razão disseram para continuar a viver. E assim foi durante muito tempo. No entanto, e só para confirmar aquilo que já sabia, alguns acontecimentos fizeram com que tivesse de me auto enclausurar num casulo muito meu, cujos pormenores não são relevantes para este episódio.
Dessa grupeta toda que chegaram a ser trinta, sobram uns dois ou três a quem chamo de "amigo", passaram no teste do tempo, viram muita merda passar, sem nunca virar as costas parcial ou totalmente. Os outros são conhecidos do bom dia, boa tarde, e boa noite. Até porque com o tempo tudo mudou, uns preferiram ficar na Terra do Nunca e nunca mais crescer, outros mandaram-se para a arena da vida e lutaram, e novamente... "fodido não tem vez".
A Alice por esta altura já conhece as minhas pretensões, já sabe o que sinto, o que gosto, o que odeio. E conhecendo-me como conhece, já sabe que a compreendo, que entro na cabeça dela e sei quando alto está bem, e quando algo está ótimo. Mesmo que ela seja ciumenta pra caralho. Eu avisei-a do que se ia passar, muito antes das merdas se passarem, eu avisei-a que "pagar pra ter amigos" não vale a pena. Porque esses amigos do "só sou teu amigo e estou contigo se me vieres buscar para eu poder estar contigo da maneira mais cómoda e de cú tremido" ou os amigos do "é ótimo estar contigo apesar de estares a falhar com as tuas resposabilidades mais importantes" ou até mesmo aqueles amigos que dizem "o teu namorado é um otário e devias cagar para ele", isso é gente que não interessa a ninguém, mas disso já eu tinha avisado... Há MESES. Mas na tesão dos vintes, é sempre preciso bater com a testa no chão para conseguir perceber o que aquele com um pouco mais de experiência diz. É que há sempre aquele puto de 20 anos que vem do alto da sua sapiência vintage cheio de força para discutir e impor os seus ideais ganhos no facebook e na televisão. E que vêm indignados demonstrar a sua indignação para quem não se está minimamente a cagar.
Anyone who can count to zero knows all the fucks I give about this kind of shit.
E ficamos nós, parvos da vida, ao saber de certas merdas que em nada contribuem para a nossa felicidade, e que ao mesmo tempo já nem se quer é importante. Acho que o maior pontapé nos tomates que podemos dar a alguém é dizer a essa pessoa o quão irrelevante para nós ela é. O nosso castelo continua igual. E o resto? Meu, que se foda o resto, os indignados, os ofendidos, aqueles a quem serve o barrete.
Hoje o copo de whiskey com soda cáustica não vai para ninguém, embora seja sexta-feira, o bar está fechado.
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