Na viragem do novo milénio alto da minha adolescência já de carta tirada e inscrito na faculdade, vi-me sem amigos. Tinha terminado um relacionamento e estava um pouco perdido. Tive de reatar algumas relações há muito perdidas e fazer algumas novas amizades. E durante vários meses a partilha de experiências foi fantástica, o miudo ostracizado sentiu-se enturmado de novo. Sempre fui o tipo do grupo que se estava a cagar para tudo, dizia o que me apetecia, e todagente apreciava a minha sinceridade. Era o gajo que levava o carro, era o único com carta, era o único que arriscava, sempre invencível. Sempre a passar as operações stop, com a estrelinha de não ser parado, ou de não acusar o suficiente para ser fodido. Era brutal, embora o síndrome de ''gaja gorda do grupo'' estivesse presente. Era como que se os meus "amigos" fossem mais amigos do meu carro do que meus. Eu tinha consciência da ilusão que vivia, e que tudo aquilo era só para mais tarde me desiludir, mas os dramáticos vinte anos cheios de razão disseram para continuar a viver. E assim foi durante muito tempo. No entanto, e só para confirmar aquilo que já sabia, alguns acontecimentos fizeram com que tivesse de me auto enclausurar num casulo muito meu, cujos pormenores não são relevantes para este episódio.
Dessa grupeta toda que chegaram a ser trinta, sobram uns dois ou três a quem chamo de "amigo", passaram no teste do tempo, viram muita merda passar, sem nunca virar as costas parcial ou totalmente. Os outros são conhecidos do bom dia, boa tarde, e boa noite. Até porque com o tempo tudo mudou, uns preferiram ficar na Terra do Nunca e nunca mais crescer, outros mandaram-se para a arena da vida e lutaram, e novamente... "fodido não tem vez".
A Alice por esta altura já conhece as minhas pretensões, já sabe o que sinto, o que gosto, o que odeio. E conhecendo-me como conhece, já sabe que a compreendo, que entro na cabeça dela e sei quando alto está bem, e quando algo está ótimo. Mesmo que ela seja ciumenta pra caralho. Eu avisei-a do que se ia passar, muito antes das merdas se passarem, eu avisei-a que "pagar pra ter amigos" não vale a pena. Porque esses amigos do "só sou teu amigo e estou contigo se me vieres buscar para eu poder estar contigo da maneira mais cómoda e de cú tremido" ou os amigos do "é ótimo estar contigo apesar de estares a falhar com as tuas resposabilidades mais importantes" ou até mesmo aqueles amigos que dizem "o teu namorado é um otário e devias cagar para ele", isso é gente que não interessa a ninguém, mas disso já eu tinha avisado... Há MESES. Mas na tesão dos vintes, é sempre preciso bater com a testa no chão para conseguir perceber o que aquele com um pouco mais de experiência diz. É que há sempre aquele puto de 20 anos que vem do alto da sua sapiência vintage cheio de força para discutir e impor os seus ideais ganhos no facebook e na televisão. E que vêm indignados demonstrar a sua indignação para quem não se está minimamente a cagar.
Anyone who can count to zero knows all the fucks I give about this kind of shit.
E ficamos nós, parvos da vida, ao saber de certas merdas que em nada contribuem para a nossa felicidade, e que ao mesmo tempo já nem se quer é importante. Acho que o maior pontapé nos tomates que podemos dar a alguém é dizer a essa pessoa o quão irrelevante para nós ela é. O nosso castelo continua igual. E o resto? Meu, que se foda o resto, os indignados, os ofendidos, aqueles a quem serve o barrete.
Hoje o copo de whiskey com soda cáustica não vai para ninguém, embora seja sexta-feira, o bar está fechado.
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