O Zé era um puto atinadinho, sem grandes apetências sociais, mas atinadinho. Sempre perdido no seu mundo de música dos 60's e day dreaming. Queria ser músico. Viver a vida rockstar. Perceber até onde o seu corpo poderia ir. Sentir a vida e desafiar deus. Desafiar deus, o pai, e o seu pai. Zé não tinha pai, o velho era um espectro que pairava na sua casa, um fantasma que o enervava, era real sem o ser. Só os sopapos eram reais. E o Zé, como tantos outros miúdos, revoltou-se claro. Todo o fruto proibido virou prato do dia. E todo aquele cliché desgastado "dos cigarros às ganzas foi um pulo", com o Zé o pulo foi dado dos cigarros aos ácidos. E dos ácidos á ketamina. Era tudo demasiado normal, morbido e deprimente na sua vida, assim o via. Estoirou o cérebro num instante. O seu estilo de vida parecia trazer uma banda sonora ao som do Iggy Pop tal e qual ao segmento no 'Trainspotting'. Whoohoo! Vamos embora. "Fuck life, fuck eachother." era um dos seus lemas. Passou a primeira década do novo milénio bêbado e drogado. Ele e metade da geração dele. "Bora lá ser open minded, bora lá ser espíritos livres. Nós somos a revolução man, ninguém nos pode parar." Do bairro alto à kapital, ao kremlin, ao lux, ao cais do sodré, as capelinhas todas elas pareciam obrigatórias, só a falta de dinheiro fazia parar o barco. Enquanto houvesse guito. Havia noite. Mesmo que já fosse de dia. O Zé largou um trabalho certo, e trocou-o por um estilo de vida. Falta perceber que estilo de vida é esse adiantando desde já que eu, como escritor, não sou ninguém para falar de estilos de vida. Sou uma personagem inventada na cabeça de um tipo com sérios problemas mentais. Mas sim, o Zé largou o seu trabalho certo, e fixo. E abraçou a noite, e a escuridão, e no desespero voltou-se para os pais, pediu-lhes ajuda. "Por favor, eu preciso de ajuda" mas nesta altura foi atropelado com um "Isso são paneleirices." Sempre foram paneleirices. Hoje, faz parte daqueles que diariamente enviam cv's para aquela infinidade de mails de músicos que já perderam a dignidade musical e aos 30 e poucos anos procuram somente algo para ganhar mais uns trocos. Como tantos outros o Zé esqueceu-se de sonhar, de viver, de passear. Sem amigos, sem pais, completamente sozinho ainda que acompanhado, o Zé esqueceu-se de sentir o sol na cara. Aquele que juntamente com a Lua se mantém coerente neste mundo. Eternos e coerentes. Tal como a sua dor. Tal como o seu sentimento de culpa de opções tomadas numa adolescência experimental. Os anos 90 foram bem melhores para experimentar. Os fundos da União Europeia foram gastos em heroína e coca. Mas ainda conseguiram dar uma boa fornada de génios, uma última boa fornada de adolescentes com olhos postos no futuro. Hoje em dia os génios pensam em código binário, e o Zé não os compreende, para ele, o pensamento Renascentista prevalece, algo que eu, concordo piamente. Porém, quem quis ser Renascentista depois do novo milénio, fodeu-se. Quem não se safou, fodeu-se. E hoje em dia estar fodido para muitos é estar MESMO fodido. Para outros, é ter de pedir dinheiro aos pais. O Zé não tem pais. E isso é muito fodido.
ps. Eu também não tenho pai, mas adoro a minha mãe. o problema é que ela não gosta de whiskey. Mas usa soda cáustica para limpar a sanita.
Nathan Vendetta.
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