Hoje ao ver mais um documentário sobre o Dave Chappelle dei por mim a pensar... "É isto que quero fazer". A parte de definir "isto" pode ser ramificada em várias coisas, dentro das quais, e num país como o nosso, se avizinha um caminho tenebroso. O mesmo senhor dizia qualquer coisa deste género "I'm one of those people that are so smart that I'm uncomfortable in this world.'' Qualquer pessoa que olha para o Dave Chappelle pensará algo parecido com isto "xiii é o gajo do professor Chanfrado!", outros dirão "Rick James Bitch!". Eu prefiro dizer que o Dave Chappelle é um artista. Sem querer estabelecer quaisquer pontes ou comparações Manuel João Vieira também é um artista, lembro-me de um episódio que aconteceu há bem mais de uma década enquanto frequentava o ensino secundário e estudava o movimento Dada, e falava com outros alunos de artes que até os Ena Pá tinham uma corrente artística. Riram-se na minha cara. Disseram que era doido. Como sempre, fiquei na minha, por muito que adore uma acesa argumentação, já na altura não tinha paciência para anti-capitalistas do visa gold dos papás. O engraçado é que desde essa altura até agora, muita coisa mudou. Muita arte aconteceu. Música. Rock. Mulheres. Tesão. Dezoito. Dezanove. Vinte. Vinte e Um... Trinta? Quase, mas ainda não.
Passaram anos suficientes para me encontrar, e àquilo que sempre quis fazer. E até hoje. Hoje. Eu não tive coragem de admitir. É óbvio que não é uma conversa que vou ter num jantar de domingo com os meus pais, até porque eles já sabem. Suspeito que sempre souberam. Eu sou um artista. Não sou um tretas. Sou um artista. Sou um artista que sente. Sou um artista do renascimento. Um artista da vida. Não sou um artista só porque estudei artes, porque isso qualquer puto "com jeito para o desenho" faz. E sou um artista porque para estar alegre e viver bem preciso de estar inspirado. É uma coisa que não é palpável a todos e que tinha vindo a perder ao longo dos tempos e mais acentuadamente ao longo dos últimos meses. E depois ela, porque é sempre ela que puxa por mim. Ela a culpada disto tudo. Porque é que tem sempre de haver uma "ela" ?
Mas voltando ao "Artista". Fodasse, nós portugueses matámos mesmo esta palavra não foi? A palavra é tão facilmente descontextualizada que por vezes até a mim provoca aquela típica confusão. Mas uma boa parte desta terapia da vida é chegarmos a um ponto em que percebemos a nossa patologia. "Mas que merda tenho eu?" . "Porque é que não sou totalmente feliz?". Há que sair do armário! E o que para uns é dizer ao mundo que andam a levar no cú, a outros é provavelmente menos indolor e igualmente depreciativo para os demais. Porque ninguém quer mais um artista em Portugal... Não há espaço! Todos querem ser ''Artistas"! O mercado é fechado. As dobragens estão entregues a actores, os novos músicos são filhos de outros músicos, os novos actores filhos de velhos actores... Isto obviamente sem generalizar nem tirar o mérito a ninguém, não se pode criticar alguém que ande por ter pernas e saber para onde vai! Mas as vezes percebe-se que existem muitos pózinhos de perlim-pim-pim. É que muitos deles não parecem filhos do patrão, muitos deles são mesmo! O mercado da comédia igualmente viciado está. Tipos que fazem stand-up desde o ''Levanta-te e Ri'' e hoje em dia ainda vão tendo trabalho, outros que escreviam para o Herman e que muitos deles estão ricos mas não por causa do Herman mas por causa de de uns Gatos e de um gajo que mordeu um Cão, outros que nunca tiveram piada e ainda ali andam sabe-se lá como, e outros que só enchem o Villaret por causa daqueles vouchers online que permitem que comuns mortais como eu assistam a um espetáculo sem certezas de piada por 5 eurinhos.
A arte em Portugal é cara com'ó caralho. É desprezada. É lançada para um fosso cheio de merda onde no mesmo constam todas aquelas individualidades emproadas que falam com a boca torta. E lá no meio constam uns tipos fixes, outros mais que fixes, mas a Arte, tornou-se de tal forma elitista que está mais protegida que uma penitenciária, com campo minado à sua volta. E tantos mortos que se vêm pelo caminho. Os Ídolos eram a promessa da renovação da música em Portugal. Não me lembro de ninguém a fazer música. E por falar em Ídolos aproveito para partilhar outro episódio fantástico que tive com a Carolina Torres há uns meses. Perguntei-lhe se ela gostava de Funk e ela respondeu: "Gosto se for bom!". E eu fiquei estupefacto, sem saber o que dizer, pelo grau elevadíssimo de inteligência que aquela resposta revelou. Nunca esperei que ela me respondesse: "Gosto se não valer um caralho". Mas já viram o que seria se começassemos a responder assim a tudo? "Gostas de sushi?" - "Epá gosto se estiver podre, cheio de moscas!" ou até mesmo: "Gostas de massagens?" - "Gosto se me estiverem a magoar como se sentisse os ossos a partir! dessas é que eu gosto"... Quer dizer, dar respostas destas é estúpido, e desnecessário. E é desta santa ignorância que a ''velha guarda'' está farta.
Eu sou da nova guarda. Fodasse, a nova guarda está a começar tarde. Cada vez mais tarde. Mas eu sou novo porque renasci, e renasci porque estive num casulo uma puta de meses, e a minha metamorfose foi para um estado iluminado tão simples como : "deixa de te enganar a ti, aos teus, deixa de mentir, deixa de ser hipócrita. tu és um artista, tu tens lugar no teu país, no mundo, onde tu quiseres". O presente é meu. E hoje eu sei o que quero fazer com ele. E com o futuro também. Mas isso são outras núpcias.
O copo de whiskey de soda cáustica de hoje vai para todos aqueles que conseguem viver das artes.
Fim da Primeira Parte.
Nathan.
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