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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Mito da Fénix - Parte 2

O percurso tenebroso.

Afogado nas mágoas da amargura de não ter conseguido os objectivos para a sua vida, o João voltou-se para dentro dele, não falou com ninguém durante dias, deprimiu e pensou em suicídio, como um artista romântico do século XIX. Fechou-se na sua música, na sua poesia, entre masturbação e sexo e pornografia, nasceu um monstro depressivo obscuro em tons de ocre e crude. Dentes pontiagudos, olhos brilhantes. O João tinha morrido, sufocado pela sua própria angústia. Passou para o outro lado, deixando todos aqueles que o amavam a perguntar o habitual "porquê?".

Do outro lado.

O barqueiro para ele olhou com felicidade, estava à espera dele há dias, sabia que ele teria as suas moedas, ele conhecia o João, ele era cliente das trevas, das noites de whiskey e ecstasy. De vómitos com sangue para dancefloors cheios de estrica, desfocados com colunas estridentes, música cortada às fatias como se de frames se tratasse. Navegou para o Inferno, era para lá que o João se queria ir. Chega de vida, agora seria só penitência. Pelo caminho conversou com o barqueiro e explicou-lhe que se se despachasse, lhe daria mais duas moedas. O barqueiro deu duas remadas mais pujantes, e começou a fraquejar... Caiu redondo. A barca estava a meio caminho. O João tinha a possibilidade de voltar para trás.

Vamos.

Lançou-se ao mar, naquele mar de morte e corja, de todos aqueles que para sempre errarão no purgatório, os mesmos que olharam para ele e o perseguiram como se de um bando de abutres se tratassem, mas a isso o João estava habituado, ele viveu metade da sua vida no século XXI, na era do desprezo, do facebook, da não-comunicação, da não-amizade, do fim da paz. Chegando à margem, exausto, a arfar, como se estivesse com asma perguntou-se:

-Se estou com asma, como é que estou morto?!

- Não estás. Respondeu-lhe um vulto.

O Tinhoso.

-"Pensavas mesmo que te deixava vir para aqui quando me fazes tanta falta na terra? És mesmo um anjinho... Tipos como tu fazem-me falta, alimentam-me, são uma espécie de fast-food do submundo. A vossa energia negativa, as vossas depressões... Nham! É demasiado bom para vos matar de "causas naturais"... Overdoses, cancro, ataques cardíacos, são muito mais interessantes para vocês, indivíduos que alimentam os vossos pares com beleza, música, comédia, ARTE! E em troca... Recebem MERDA. São desprezados, obrigados a trabalhar de borla, sem qualquer incentivo ou uma palmada nas costas. Achas que quem vos explora trabalha para mim? Não, o outro lado, aquele "mais claro", está igualmente corrompido, não sabias? És mesmo um anjinho, ACORDA ANIMAL! Pensas que o mundo está fodido só por causa dos maus?! Os bons não foderam isto também! Quem achas tu que são os "bons"? Eles? Os bons são aqueles que amam, nunca aqueles que vendem. A honestidade é uma arte perdida. Todos mentem Joãozinho... Quando vais acordar? Achas que a tua mãe te ama? O teu paizinho? Achas que eles não estão fartos de ti? Tenho uma proposta para ti."

A Proposta.

O Tinhoso contínuou a babluciar sobre um serviço que ele tinha para ele, explicou-lhe que fez o mesmo há umas décadas atrás com uma geração, criando o Rock & Roll, que eram tempos diferentes, que não havia nem bem nem mal, só havia arte. Era mais fácil, que hoje, a crise afetava até o Inferno, já ninguém acredita em nada. É tudo Ateu. O João riu-se, porque não existia ninguém mais ateu que ele, ele não sofria de nenhum desdém pela religião, era-lhe completamente indiferente, estoico, niilista talvez. Em tom de gozo perguntou-lhe se queria que escrevesse para as massas. Disse que queria mudar o mundo. Fazer um Reset. Estava demasiado consciente para um tipo suicida, e isso assustou o Tinhoso.

-"A proposta é a seguinte, vais escrever uma obra. UMA. Com essa obra, vais mudar uma geração, não vais parar de escrever, vais passar fome, vais ser rejeitado pela tua mulher, pelos teus pais, pelo teu filho, vais emagrecer, vais deixar de ser exemplo, vais agarrar na tua energia negativa e vais colocá-la num papel. Não te preocupes que eu vou estar por perto para ler."

O Cepticismo.

Ao acordar, João percebeu que de um sonho se tinha tratado, tão real que as marcas das queimaduras tinham sido trazidas com ele. Desceu aos infernos e voltou como de tantas outras vezes, como se de um passeio ao Cais do Sodré se tratasse. No seu correio estava uma carta, nela, nada escrito, somente uma gota de sangue. Foi real, ele morreu, e ressurgiu, a sua roupa cheirava a fumo, a cinzas.

Fim da Segunda Parte.


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